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Resenha do filme - O filho de Mil Homens

  • Foto do escritor: Alexandre Henrique do Nascimento Tavares
    Alexandre Henrique do Nascimento Tavares
  • 1 de jun.
  • 3 min de leitura

Tornou-se comum a associação de arte com passatempo, de cinema com diversão. Certas pessoas acreditam que o entretenimento é a única função de uma produção artística. Entretanto, determinadas obras de arte desafiam esta linha de pensamento. Isto porque, vez ou outra, a arte desempenha um papel desconfortável. Desta maneira, o filme “O Filho de Mil Homens” é um excelente exemplo das variadas finalidades artísticas.

O Filho de Mil Homens” é uma obra cinematográfica de drama, lançada em 2025, sendo dirigida por Daniel Rezende, produzida pela Barry Company e pela Biônica Filmes, baseada no livro homônimo de Valter Hugo Mãe e disponibilizada pela Netflix.

A narrativa é dividida em capítulos, intercalando diferentes personagens e pontos de vista. Embora, a princípio, possa parecer que a trama se concentrará unicamente em Crisóstomo, personagem interpretado pelo ator Rodrigo Santoro, não demora para que sejamos apresentados a outras figuras. Assim, ainda que tais ferramentas narrativas possam provocar estranheza em parte do público, seu uso se mostra, mais tarde, compreensível, justificável e inteligente.

Nota-se que, mesmo se encontrando em contextos variados, os personagens possuem conflitos que se alinham a angústias semelhantes: a solidão e a falta de pertencimento. Isto porque o filme constrói um cenário social que reflete a exclusão e o julgamento baseado em estereótipos. Portanto, determinadas características dos personagens, como nanismo e orientação sexual, fazem com que eles sejam vistos com maus olhos pelas pessoas ao redor, causando infelicidade.

Percebe-se como a obra desenvolve não somente o aspecto social, como trabalha profundamente a questão sentimental. Afinal, os conflitos internos dos personagens são o que movem a história. Considero o foco na veia emocional como o maior acerto do filme.

Ainda assim, é relevante ressaltar que, mesmo a exposição aos sentimentos dos personagens sendo um ponto interessante, também possui o potencial de afastar certos espectadores. Há cenas que se diferenciam do que muitos estão acostumados a assistir, explorando temas sensíveis. Por meio destes trechos, somos expostos a situações de enorme vulnerabilidade, podendo ser um gatilho para diversas pessoas.

Todavia, em minha visão, o desconforto provocado no filme contribui com a formação de uma identidade realista e filosófica. Nenhuma das cenas sensíveis é desnecessária, visto que cada uma delas cumpre o papel de desenvolver esse cenário social fictício e os personagens. Portanto, a exposição a esses temas nos aproxima daquelas pessoas. É como se vestíssemos as suas peles e sentíssemos as suas dores. Uma escolha artística que fortalece a criação de vínculo com os personagens e torna a experiência mais comovente.

Ao decorrer do filme, os múltiplos pontos de vista se convergem em uma única trama. Isto demonstra um roteiro de alta qualidade, pois soube conectar diferentes arcos, fazendo deles uma grande história sobre hostilidade social e pertencimento. Agrada-me como os personagens não encerram a trama da mesma maneira que se encontravam no início, o que estabelece um desenvolvimento.

Em suma, considero “O Filho de Mil Homens” como uma obra ousada, crítica e poética. Potencialmente desconfortável, mas também acolhedora. Uma experiência que explora a capacidade da arte de explorar temas sensíveis, o que é aplicado de forma bem trabalhada e inteligente. Estou consciente de que não agradará a todos. Contudo, possui o poder de proporcionar vastas reflexões. Admiro a ambientação imersiva, a fotografia realista e filosófica, as atuações impactantes e, principalmente, o roteiro de grande profundidade crítica e emocional. Vejo-o como um filme com uma identidade, longe da superficialidade.

Por vezes, a arte será desconfortável. Porém, isto não a invalida. Isto a torna mais poderosa.

     Revisado por: Ana Beatriz

 
 
 

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