Relato de Experiência de Viagem - Petiano Egresso Emanuel Esdras
- Emanuel Esdras Gualberto
- há 5 dias
- 6 min de leitura
Da barraquinha de churros ao Festival de Inverno de Bonito
(como um grupo de estudantes desafiou uma máquina de churros de 220 volts)
Era o ano de 2021. O álcool em gel ainda era perfume e ver gente sem máscara parecia anormal. Depois de mais de um ano de reuniões quadradas no Google Meet e abraços substituídos por emojis, o PET voltava ao presencial. E com isso, nosso crescente desejo ancestral de aproveitar o mundo que por um instante parecia ter nos sido confiscado. No planejamento do ano anterior, já havíamos ousado incluir uma “Viagem Cultural”, mesmo sem saber para onde, quando ou, sinceramente, como faríamos isso acontecer.
Eu e Myrella, apoiados pelos demais colegas também movidos pela coragem e pela curiosidade, depois de algumas discussões entusiasmadas sobre o destino, tivemos uma visão: o Festival de Inverno de Bonito. Ali estava nossa Ítaca. Nossa Canaã terrena. Nosso destino glorioso de universitários sem dinheiro, mas com ávida vontade de ampliar o repertório tomando banho de rio e ouvindo música boa.
Propusemos a ideia à nossa tutora, Dra. Célia Delácio, mulher sábia, democrática, e com paciência de Jó. Ela nos ouviu, ponderou, e com aquele tom sereno de quem já conhece as dores da vida acadêmica, anunciou:
“Não há verba para isso, amados.”
Além de ser o tempo em que todo o mundo ainda se recuperava da pandemia, a universidade também vivia sob o peso de uma intervenção federal direta na reitoria (como se não bastasse o caos global, ainda tínhamos nosso próprio drama interno). As esperanças murchavam, os orçamentos evaporavam, mas petiano que é petiano e que faz planejamento anual não se entrega fácil. Assim começou a grande jornada da arrecadação.
O esquema de pirâmide de festas juninas
Descobrimos, através de Célia, que o sindicato dos professores faria uma festa junina na ADUF, a associação dos professores da universidade. Inscrição: R$ 350,00.Era caro para meros estudantes bolsistas? Talvez. Mas como bons guerreiros da educação pública, fizemos o que todo herói contemporâneo faz quando o mundo lhe nega recursos: abrimos uma vaquinha. E os professores ajudaram! 50 aqui, 100 ali… Pagamos a inscrição, compramos os insumos e os espetinhos buscados pelo Leandro às 11h da noite do outro lado da cidade. Com as vendas, levantamos uns trocados. Um valor simbólico, ainda muito longe do que precisávamos para a nossa viagem.
Foi então que veio a festa junina da UFGD, que é tipo um Lollapalooza para os universitários douradenses. As inscrições para as barracas eram disputadas como vagas em concurso público com gente chegando às 5h da manhã para garantir um lugar na fila e pegar a barraca mais lucrativa.Decidimos revezar: cheguei cedo, armado de café, chipa e esperança. Quando já era quase meio-dia fui substituído por Leandro, enquanto corria pro estágio. No final da tarde conquistamos nossa barraca: a de churros. Não por escolha. Mas por destino, como verá.
O Desastre dos Churros
Eu fui o responsável pela massa dos churros, que aprendi mais ou menos depois de três tutoriais no Youtube. Pouca. Ridiculamente pouca. Um punhado simbólico, digno do meme “Fiz o que pude. Pude pouco.” Mas estávamos ali, unidos, com nossa barraca decorada, fantasiados de Lampião e Maria Bonita e as mãos melecadas de doce de leite.
E como se o universo decidisse testar nossa fé na viagem, a máquina de churros de 220 volts (alugada por sei lá quem) queimou ao ser ligada na tomada 110v disponível na barraquinha. Caos! Caos total! Isso já no meio da festa com o forró à toda torando no palco e o povo embreagado em busca de glicose. Todo mundo vendendo, fazendo sucesso, anunciando pastel frito em caixa de som. E a nossa barraquinha? Paralisada no auge da multidão. Multidão essa faminta por churros como franceses batendo à porta de Maria Antonieta.
Foi aí que Myrela, mineira proseadora, astuta, dotada do dom do improviso e proatividade, saiu da festa, encontrou uma família de um senhor, sua esposa e filha vendendo churros a R$ 7,00 na entrada do evento e lançou o plano de salvação da nação PETiana:
“Moço, a gente te leva com seu churros pra dentro, a gente vende ele a 10, o senhor fica com os seus 7 e a gente com os 3.”
Depois do nosso ousado esquema de pirâmide junina, nascido entre espetinhos e esperanças, surgiu o comércio paralelo dos churros piratas, que, diga-se de passagem, eram infinitamente melhores do que os meus, cuja massa tinha consistência e sabor de massinha pedagógica. Podem chamar de milagre, mas eu ainda acho que meus colegas provaram minha massa, viram que aquilo não nos levaria nem à Rio Brilhante, e decidiram terceirizar o serviço para quem sabia fazer direito. Sendo assim ou não, foi o que deu certo.Lampiões e Marias Bonitas se revezaram nas vendas do churros terceirizado durante os dois dias de festa, vendendo churros e mais churros, vendo o caixa engordar como massa bem frita.Pelos boatos que circularam, depois da barraca de bebidas e da espalhafatosa barraca do pastel, a barraca dos churros foi a mais lucrativa. Aquela que fora uma das últimas opções de venda na fila da reitoria, seria uma das mais cobiçadas no ano seguinte.
O Tesouro e a Vitória
No final da noite, enquanto desmontávamos a barraquinha e comíamos churros de consolação, generosamente oferecidos pelo senhor do churros e sua família, Myrella e Leandro contavam o lucro como um bolsista que conta moedas na fila do R.U. As centenas de churros vendidos foram o bastante para acender nossa esperança de concretizarmos nosso planejamento e vermos de perto as águas do oásis sul-matogrossense.
Nossa tutora, ao ver tamanha persistência, empunhou a espada da argumentação, calçou o salto da humildade, e marchou, bonita e elegante, até a Pró-Reitoria de Graduação, pró governo, pró cortes. E, num ato digno de epopeia, conseguiu não só o micro-ônibus da universidade, como também o motorista… e o combustível!
Com o montante que gordurosamente arrecadamos, reservamos uma casa confortável e a entrada de cada petiano em um balneário que parecia acolhedor. Malas prontas, numa sexta bem cedo, partimos da praça Antônio João para nossa Jerusalém.
Após horas percorrendo uma estrada de terra empoeirada, ladeada por morros que ainda guardavam resquícios da vegetação cerraneira e por bois que pastavam sem pressa, chegamos triunfantes à cidade. A praça central de Bonito estava abarrotada de viajantes de todos os cantos, todos atraídos pelo mesmo chamado: os dois dias do Festival de Inverno.
A casa que conseguimos alugar era ótima. Longe de uma acomodação 5 estrelas, verdade. Mas confortável. Foi divertido dividirmos quartos, fazermos fila para tomar banho e estreitarmos os laços da intimidade ao ver a cara amassada de cada colega ao acordar pela manhã.
No sábado o dia amanheceu limpo e quente. Depois de um farto café da manhã coletivo também possibilitado pela venda dos churros, seguimos para o balneário ao encontro do Rio Sucuri.Espalhamo-nos pelas redes, pela grama. Mergulhamos na água mais transparente que qualquer um ali já havia visto. Deslizamos em pranchas de stand-up paddle, comemos, bebemos, rimos, desabafamos, fofocamos, e brincamos como crianças percebendo que o mundo, a natureza, continuavam ali, alheios a qualquer percalço da vida humana. Aliás, após um ano de restrição humana, eu diria que tudo até estava mais verde.
O FIB
Depois de lavarmos o corpo e a alma e de ver que tudo valeu a pena, cada um colocou sua melhor roupa para curtir a primeira noite do festival. Artistas nacionais e locais dividiam o palco com entusiasmo e alegria. A melodia da Vanessa da Mata, o enorme vestido da Gaby Amarantos, a voz e o balé impecável da Majur, a descoberta de novos artistas na cena da música brasileira e a professora Miho batendo cabeça ao som do IRA. No final da noite, todos felizes, menos o motorista, que nos esperava impaciente na praça para nos levar de volta à casa.No domingo, o último dia, curtimos o festival na cidade. Artes visuais, palhaçaria, moda, carne de jacaré, e outras cositas más. Fomos à uma mostra de cinema que, por uma dessas coincidências do destino (ou não) exibiu um curta-metragem produzido por uma colega do mestrado que estava conosco, com participação da icônica professora Sílvia Miho, que também pôde se ver na tela e, junto à produtora, viver aquela conquista.
Tudo se encaixava como se o universo, por um breve instante, se rendesse e nos recompensasse por todos nosso esforço.
O motorista, é verdade, não compartilhava do mesmo entusiasmo. Reclamava dos nossos pequenos atrasos com o vigor de um corvo de mau agouro. E também do quarto que compartilhava com nosso colega Arilson. E do calor. E dos preços. E da experiência que, para nós, era única e nada, nem mesmo ele, estragaria. Virou até piada interna, pois toda grande aventura que se preze precisa de um vilão cômico. Obrigado motorista que não lembramos o nome.
A Moral da História
Voltamos outros. Não só por termos visto as águas realmente cristalinas de Bonito. Mas por termos provado que, quando a vontade é grande e a verba inexistente, a força de vontade vira capital. E que se tá no planejamento, nós vamos cumprir!
Para nós, nossa saga foi algo além de uma “viagem cultural”. Ela nos mostrou na prática comunidade, colaboração, persistência, o poder coletivo da educação pública, e a importância da existência de um programa que permite ao estudante se desenvolver de forma autônoma e vivenciar o novo. Para mim, o Pet foi e é mais do que um programa. É um lugar de relações humanas onde cada estudante pode se descobrir, explorar suas potencialidades, construir seu caminho, aprender que é possível fazer acontecer. E ser ainda melhor quando é feito junto.Sobre essa viagem, se hoje alguém me pergunta como a gente foi parar lá, eu digo:
“Com uma máquina de churros que queimou, e estudantes que se recusaram a desistir.”



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