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PET Marca-páginas: Colega

Betina Waideman dos Santos
há 3 minutos
4 min de leitura

Depois de deixar a Colega na porta de sua casa, e amigavelmente cumprimentar o pai dela de longe, o Colega seguiu o rumo da roça em direção à sua casa.


Era uma casa comum, com paredes comuns e moradores comuns. 


Tinha um caminhozinho de pedrinhas da rua de terra até a porta da frente, em volta do caminho pedroso, grama verde e macia, com um árvore de folhas grandes e que dava frutos não comestíveis, mas tinha uma deliciosa fragrância durante a noite.


A porta era de madeira, e as paredes eram de tijolos, como todas as outras casas comuns da região.


Ele passou pela sala de estar, o Padrasto estava ali, uma garrafa de cerveja na mão, o placar do jogo de futebol estava em dois a um. 


— Noite.


O Padrasto ergueu a garrafa.


— Noite.


O Colega foi andando pelo corredor, ignorando os quadros na parede. Era possível ver um garotinho loirinho e sorridente neles, e em cada um dos quadros, o cabelo ficava mais escuro.


Uma mulher ruiva sorridente em um deles com um homem de cabelos escuros. 


Um homem gentil. 


E eles eram dolorosamente parecidos.


Então o Colega se lembrou que ele estava ignorando aqueles quadros. Fugiu para a cozinha. Sua mãe cantava uma música da Nana Caymi. 


— Oi mãe.


— Oi querido, como foi lá com seus amigos?


— Foi legal.


Ela continuou a cantar, enquanto lavava a louça.


— A senhora precisa de ajuda com alguma coisa?


— Acho que agora não, querido. Eu fiz a janta, não quer comer?


— Acho que não, estou sem fome.


Ele se virou.


— Precisar de alguma coisa pode me chamar…


— Sim querido, pode deixar…


O Colega marchou para o seu quarto. Era um cômodo relativamente pequeno, mas comum. Tinha uma cama, um armário e uma cômoda. 


Ele podia viver muito feliz com isso.


Em cima da cômoda tinha um rádio preto e grande. Ao lado dele uma coleção limitada de CDs. Ele escolheu aquele que o homem da foto gostava.


Em cima do rádio, num porta retrato na parede, tinha uma carta escrita em papel branco.


Para o meu garoto…


      Lembre-se: 

                            Disciplina é liberdade;

                            Compaixão é fortaleza;

                            Ter bondade é ter coragem;


                                 Eu amo vocês.


Então ele colocou o CD para tocar.  Volume máximo. Um adolescente bastante comum. 


A porta do quarto é escancarada pelo padrasto.


— Abaixa esse som! Eu não tô escutando o jogo!


— Tá! 


O Colega diminuiu o volume. Ficou ouvindo o álbum todo. 


Enquanto as musicas tocavam, o Colega organizava o quarto.


Levou o rádio que lia CDs para o banheiro. Ficou escutando a música enquanto tomava banho.


Ele sempre se irritava com o breve momento de silêncio entre a tomada do quarto e a tomada do banheiro.


Então saindo do banheiro, completamente úmido, ruidosamente umido era o som do rádio, até ser desligado novamente para migrar novamente para o conforto do quarto frio.


Com a toalha na cintura, e tremendo horrorosamente, o Colega ainda se deu o trabalho de ir buscar água gelada na cozinha.


— Querido, você está tão magrinho…


— É, eu ouvi dizer que no frio gastamos mais calorias.


— Então vai colocar uma blusa, pelo amor de Deus!


O Colega voltou para o quarto, vestiu-se com um abrigo confortável e azul. 


Voltou para a cozinha, rádio em mãos, serviu-se de um prato generosamente montanhoso de arroz com sopa de carne e mandioca.


Sua mãe deixou tudo o que estava fazendo e sentou-se com ele. Ela não comeu nada. Já tinha jantado, mas o que cistava fazer companhia ao seu menino?


— Como pode comer tanto e continuar tão magrinho?


— Acho que é o frio, e a fase de crescimento.


— Pode ser, ouvi dizer que os meninos crescem até os vinte e um.


O Colega tentou sorrir.


— É, eu tenho mais três anos para crescer ainda. 


— Quer ai ao mercado comigo amanhã?


— Não sei, chama o seu marido…


— Tudo bem. Mas acho melhor não. — A mae do Colega sorriu e piscou para ele — Ele é meio mão de vaca.


O Colega sorriu.


Terminando de comer, ele pegou o rádio e o levou novamente para o quarto. Trocou o CD. 


Agora era hora de ouvir o In Utero. 


Deitou-se na cama, o Jovem tinha emprestado a ele um livro. Disse que ele se parecia com o protagonista  Bala.


“E porque é que me pareço com esse aí?”


“ Porque você é gentil, e gosta de gente inteligente.”


Até agora Bala parecia um cara legal e bem dado, mas o Colega achou estranho o Jovem achar que eles fossem parecidos, porque ele mesmo não poderia dizer que era tão corajoso, ou habilidoso (por assim dizer) com as garotas.


Na verdade, Bala só teve medo uma vez até então, que foi medo da maldição da menina do arial. 


Bala parecia um cara legal. Parecia. 


Ele não entendeu porque alguém escreveria algo assim. Indignado, o Colega fechou o livro e dormiu. 


Sua mãe passou no seu quarto um pouco depois para desligar a luz e diminuir o volume ainda mais.


Desligar nunca.




Escrito por: Betina Waideman dos Santos



 
 
 

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