CINEPET - Vitória
- Pedro Henrique Alves Fialho
- 24 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Coragem individual e tensão coletiva em um cenário urbano do Rio de Janeiro.
A trama se baseia na história real de Joana da Paz — aposentada que, diante da sensação crescente de insegurança em sua vizinhança, decide documentar a movimentação de uma quadrilha de tráfico de drogas e policiais corruptos a partir da janela de seu apartamento em Copacabana. A atriz Fernanda Montenegro interpreta “Dona Nina”, personagem inspirada por Joana, o que já traz ao filme uma referência potente à trajetória de uma atriz ícone do cinema brasileiro, conferindo ao projeto uma solidez de presença que poucas produções nacionais recentes conseguem.
O filme é bem‑sucedido ao explorar a história sob dois vetores principais: o realismo brutal da violência urbana e a inserção de uma pessoa aparentemente comum (uma idosa, aposentada) que toma a iniciativa de confrontar o sistema de impunidade. Essa tensão entre o “habitual” e o “inimaginável” funciona como motor narrativo. A câmera da personagem, a gravação, o olhar da janela, tudo isso sugere o deslocamento de uma pessoa que observa para alguém que age, e isso cria envolvimento. O roteiro de Paula Fiuza constrói com competência esse arco de transformação.
No entanto, apesar das virtudes, o filme apresenta algumas fragilidades. A estrutura narrativa, por vezes, opta por direções mais convencionais de suspense policial‑urbano que limitam o alcance simbólico da história. Por exemplo, se a premissa permite explorar dimensões mais profundas de compaixão, desconforto social ou transformação política,
“Vitória” em certos momentos se prende à mecânica dos “grandes momentos de denúncia” e encontra dificuldades para aprofundar a caracterização dos personagens coadjuvantes ou o impacto prolongado da ação da protagonista sobre a comunidade. Nesse sentido, o que poderia se abrir como reflexão mais radical sobre justiça, participação cidadã ou vigilância comunitária acaba ficando parcialmente dentro dos parâmetros de um thriller de alcance médio.
Na atuação, Fernanda Montenegro segura o filme com firmeza: sua presença transmite credibilidade e dignidade à Dona Nina, e evidencia que a coragem não está necessariamente nos atos gigantescos, mas no cotidiano que se recusa ao medo. Isso é um ponto alto. Por outro lado, o filme sofre um pouco com desigualdades de tom entre a protagonista e o restante do elenco — alguns personagens menores não recebem arcabouço narrativo equivalente, o que fragiliza a densidade dramática nas tramas secundárias. Em termos visuais, o longa utiliza bem o cenário da Zona Sul do Rio e a sensação de vigilância desde a janela funciona como metáfora de uma vigilância muito maior — a do Estado, da cidade, da comunidade — o que dá força ao tema.
Do ponto de vista sociocultural, “Vitória” acerta ao resgatar uma história brasileira relativamente desconhecida e dar visibilidade a um protagonismo feminino em contexto urbano violento, algo ainda pouco explorado no cinema nacional. É também uma produção que atinge público: foi a maior estreia nacional de 2025, o que indica que o filme dialoga bem com espectadores e vai além de nichos. Ainda assim, a produção poderia ter se beneficiado de ousadias adicionais — seja no estilo narrativo, ou em rupturas visuais mais acentuadas — para realmente se firmar como obra memorável no panorama do cinema brasileiro recente.
Em suma, “Vitória” é um filme relevante, bem interpretado, e necessário — sobretudo para refletirmos sobre cidadania, vigilância e violência — mas que talvez não arrisque tanto quanto poderia. Ele marca um passo promissor, especialmente por dar voz a uma história de resistência civil muitas vezes silenciada, embora fique aquém de transformar esse impulso em um cinema radicalmente original ou estilisticamente disruptivo. Para o público, representa uma experiência digna e inspiradora; para o cinema nacional, um indicativo de que histórias com impacto real podem (e devem) ocupar espaço.



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